O MITO DO ESPELHO

Um dos primeiros e o mais nefasto paradigma que precisa ser destruído urgentemente é este que diz que somos “indivíduos”. Sim, é uma visão já bem firmada, defendida, difundida, intrínseca à imagem que temos de nós, mas peço licença para analisá-la.
Cada um de nós está convencido de que é um indivíduo, de que é livre e independente. Essa é uma das ideias mais comprometedoras, mais contrárias à qualidade de vida e à felicidade dos homens.
Quando você se olha no espelho, sozinho ou acompanhado, o que você vê é que é “uma pessoa” e tem a ideia de que é “um indivíduo”, mas isso pode ser entendido como um engano, uma mentira comprada a um alto custo para todos nós.
Vejamos alguns conceitos acerca deste termo “indivíduo”:

s.m. Ser humano; pessoa considerada de modo isolado em sua comunidade, numa sociedade ou coletividade; o ser que faz parte da espécie humana; o homem: os direitos dos indivíduos.
Biologia. Ser único de uma espécie; ser que se distingue dos demais.
P.ext. Pej. Quem não se quer nomear: o indivíduo chegou tarde?
adj. Que não é possível dividir, separar: culturas indivíduas.
(Etm. do latim: individuus.a.um) 
Fonte: http://www.dicio.com.br/individuo/

Um indivíduo é uma pessoa independente em relação aos demais, um ser autônomo definido por sua capacidade racional e força de vontade. Fonte: http://conceitos.com/individuo/

…o conceito indivíduo se conecta de forma direta com a filosofia do individualismo, onde a liberdade individual se torna o principal motor de felicidade. A sociedade está formada por indivíduos que compõem o tecido social de um grupo. Fonte: http://conceitos.com/individuo/

Isto nos convence de duas ideias sobre nós:
1º – que somos “um todo indivisível”;
2º – que somos separados, independentes.
Poucas coisas podem ser tão prejudiciais e perigosas como essas duas idéias que parecem tão simples, mas que estão na raiz da maioria dos problemas íntimos e sociais.
São essas ideias que contribuem, e muito, para a existência do egoísmo, do egocentrismo, da competitividade, da prepotência, da violência, da crueldade, da falta de cuidado para com o meio ambiente, da falta de compaixão, da intolerância, do medo, da autocracia, da avareza, da sede de poder, da depressão e a lista continua…
Por quê? Porque a partir dessas ideias estamos convencidos de que não pertencemos e se pertencemos somos independentes.
Primeiro, nós não somos seres simples e indivisíveis como é a ilusão que vemos diante do espelho.
Segundo, nós não somos individuais, não somos independentes, somos pertencentes, somos dependentes do meio e dos outros da nossa espécie, da nossa raça, humana.
Mas mais que isso, nós somos o todo, somos os outros também e os outros somos nós. Somos a natureza, o planeta, o meio ambiente. Não há independência, há simbiose, há pertencimento e interdependência vital para nós, para os outros, para o meio. Separar-se é adoecer, sentir-se uno, individual, é uma patologia silenciosa e fatal para todos.
Não somos um ponto, somos uma onda. Não somos uma máquina, um corpo, somos um sistema complexo e pertencente, parte de outro sistema maior e outro maior e outro maior…
Dizer que somos um “sistema complexo” não significa dizer necessariamente “difícil”, mas “composto”.

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Não somos apenas corpo, alma e espírito. Também não somos apenas corpo e psique. Somos um conjunto de aparelhos, de órgãos, de tecidos, de moléculas, de células, hormônios, átomos e todas essas partes menores que compõem nosso físico, inclusive os átomos também são sistemas complexos, compostos e interdependentes. Ou seja, nenhuma dessas partes seria sem as outras. Um coração separado do corpo, do sistema circulatório, não é mais um coração. A glândula pineal fora do corpo não é mais uma glândula. O sangue fora do corpo não é mais sangue, é qualquer outra coisa, mas não é mais o sangue que nos dá vida. Cada parte desse sistema separada dele adoece e morre, transforma-se em outra coisa.
O mesmo acontece conosco por causa da nossa crença neste mito de que somos “indivíduos”, individuais, independentes.
Se pensamos em cuidar e proteger a natureza que está fora de nós, separada de nós, então não a protegeremos e não entendemos nada. Por esse motivo, os louváveis esforços de cuidados e preservação do meio ambiente ao longo dos anos têm sido frustrados ou muito pouco eficazes.
Se tento amar o próximo que não é eu, que está fora de mim, então não conseguirei amá-lo de verdade, respeitá-lo, aceitá-lo, compreendê-lo, tolerá-lo. A não ser na ínfima e frágil proporção de um esforço artificial e superficial.
Como o coração, o baço, o sangue, se nos separamos, nos individualizamos, adoecemos e adoecemos os outros e o meio.
Se entendermos que o outro também sou eu e que eu sou também o outro, seja quem for, seja como for, tenha o que tiver, creia no que crer. Se entendermos que o meio ambiente sou eu e que eu sou o meio ambiente. Se entendermos que as árvores, as águas, os animais, as pessoas somos nós, não estão fora ou separadas de nós, são partes de nós e somos partes deles. Então, como poderei destruí-los? Como poderei prejudicá-los? Se ferimos a natureza estamos de forma “desinteligente” ferindo a nós mesmos. Se negamos o outro como sendo também nós, estamos de forma equivocada negando a nós mesmos.
Isso não é ficção científica, não é fantasia, não é ideia de louco (porque não é minha), isso é ciência, é física, é medicina, é fato, é a vida e é também evangelho.
Esta é a boa nova: você não precisa ter mais medo, não precisa mais competir, não precisa mais querer acumular, não precisa mais de preocupações, não precisa mais querer realizar, não precisa mais se isolar, sentir solidão, porque você pertence e é composto de todos e de tudo. É só relaxar e fazer parte. É só descansar e pertencer, que todo o resto se fará da melhor maneira, melhor do que você é capaz de sonhar e querer.
Esta é a in-versão de um rumo que temos tomado por engano. É vital fazermos essa conversão, esse retorno. De volta à VIDA.
Sei que você que está lendo este texto é um ser racional e quer uma prova do que estou dizendo, então vamos lá.
Você sabe qual é o pior castigo, o maior mal que se pode fazer a um ser humano?

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Matá-lo? Não.
Torturá-lo? Não.
Matar a sua família? Não.
Torturar seus filhos? Não.
Tudo isso o ser humano é capaz de superar.
O maior castigo, o maior mal que se pode fazer a um ser humano é isolá-lo completamente de outros seres humanos e da natureza. Isso nós somos incapazes de superar.
Esse é o maior castigo nas prisões, a solitária, o isolamento. Dependendo do tempo de isolamento, causa demência, atrofia, incapacita completamente, tira todas as forças, a identidade e a vontade de viver.
Mas quando você leu acima “matar e torturar a família” titubeou, não é mesmo? Eu também. Sabe por quê? Porque isso prova o quanto somos os outros e o quanto eles são nós. A solitária é o maior castigo, a maior das violências, como também é ignorar uma pessoa.
Mas quem é pai ou mãe sabe que atingir os filhos dói muito mais em nós do que se atingirem a nós mesmos, porque os temos como uma extensão nossa, educados que fomos a entender que apenas eles são partes de nós. Engano.
Somos Todos. Aqueles que estão na crackolândia, aqueles corruptos de Brasília, os bilionários, os pobres, os sem teto, as crianças da Síria, os refugiados de guerra que se espalham pela Europa, os escravizados das fábricas da China e até aqueles que exercem o poder nos Estados Unidos, os membros da CIA, da ASN, do senado estadunidense, todos são eu e você.

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Enquanto houver uma criança com fome no mundo, meus filhos não estarão saciados e saudáveis.
Enquanto houver um injustiçado no mundo eu e você não teremos paz e justiça.
Enquanto houver um infeliz no mundo, eu não posso ser feliz, porque ele é parte de mim e eu sou parte dele.
Enquanto houver um doente sequer, eu estarei doente.
Cada árvore cortada, cada rio poluído, cada oceano infectado, cada bomba atômica que explode, cada animal que é morto ou maltratado é um pouco de mim e de você que morre.
Sua mente pode fugir disso, sem dúvida. Seu sentimento pode fugir disso, certamente. Mas sua consciência não, se você ainda a tiver.
Estaremos doentes e infelizes enquanto houver alguém no mundo doente e infeliz e enquanto o meio ambiente for depredado. Mesmo que neguemos, mesmo que não aceitemos, mesmo que não compreendamos. Assim é.
Quebre o espelho que te mostra indivíduo, mate o mito, destrua a sua vida como você a entende hoje e comece a caminhar realmente, verdadeiramente saindo da estagnação, da mentira e do engano que compramos com nossa própria vida e com a vida dos que amamos.
Não tenha medo de pensar diferente, não tenha medo de experimentar, não tenha medo de ousar andar na contramão, não tenha medo de perder o controle ou a sua felicidade. Porque o que temos é a ilusão de que temos o controle e a felicidade. O que podemos e devemos perder é apenas a ilusão.
Eu sou também você e você também é eu, não somos independentes, somos interdependentes, somos parte uns dos outros, somos a água do rio, somos os oceanos, somos o ar que respiramos, e tudo isso é o que somos. Isso não é poesia ou literatura, é princípio de felicidade, de saúde, de equilíbrio e de VIDA.
Não aceite o que estou dizendo, mas também não rejeite. Critique, reflita, pense, experimente, pesquise. Estas não são ideias acabadas, infalíveis, são apenas rabiscos e esboço que precisam de você para serem completadas e melhoradas, porque nada se faz sozinho. Preciso de você, você é que é a parte mais importante de tudo o que eu disse aqui.

A PAZ.

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