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Invertemos completamente a lógica da economia. Porque quanto mais acumulamos, mais pobres ficamos. Quanto mais guardamos, mais endividados nos tornamos. Guardar e acumular constitui o caminho mais curto e seguro para a miséria.

Vejamos:

O que aconteceria se um bando de animais selvagens, como hienas, leões ou tigres, capturassem uma caça e apenas o chefe do bando, o mais forte, ficasse com toda a carne ou com a maior parte sempre?

Como seria a natureza se as árvores poupassem, acumulassem, guardassem suas riquezas como as folhas, as raízes, as sementes, os brotos, as mudas?

No primeiro caso, o animal dominador teria mais carne do que conseguiria comer, perdendo o restante, enquanto os outros membros do bando iriam enfraquecendo até definharem completamente ou se rebelarem, atacando o dominador e causando tensão e luta. Essa é a prova do desequilíbrio causado na economia daquele bando, até chegar ao ponto em que o chefe, sozinho, não conseguiria mais capturar suas presas, ficaria solitário e o sentido da sua vida desapareceria. Cairia em miséria e é provável que viesse a morrer. O chefe do bando, quanto mais comida acumulasse, quanto mais guardasse, mais tiraria dos outros e, portanto, mais endividado estaria. O que ele acumularia, em última análise, seria dívida.

No segundo caso, se a árvore não soltasse e distribuísse as suas folhas pelo solo onde ela está plantada, o solo que a alimenta e sustenta ficaria pobre e ela morreria. Além do mais, as outras árvores daquele meio também morreriam, cheias de folhas, mas sem um solo fértil que as alimentasse. A espécie entraria em colapso, porque sem distribuírem as sementes, não nasceriam mais novas árvores. O resultado seria o colapso da economia daquela espécie naquele ambiente. A árvore que acumulasse suas riquezas ficaria devendo ao solo e ao ambiente. O que ela acumularia, em última análise, seria dívida.

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E por que seria diferente com os humanos?

Tomemos qualquer ambiente social humano, pode ser uma família, uma empresa, um bairro, uma cidade, um país, o globo.

Consideremos alguns poucos privilegiados em condições de poupar, guardar e acumular bastante riqueza.

Consideremos que a riqueza, seja qual for, não é ilimitada nem infindável ou infinita.

Portanto, quanto mais concentração, mais pobreza, mais miséria, mais dívidas. Em princípio, a pobreza, a miséria e a dívida estarão sobre os demais membros da sociedade. Mas logo depois ela atingirá o poupador, o acumulador, o que se considera, pelo acúmulo, um rico afortunado.

A dívida contraída, em todos os casos, acaba sendo cobrada e o elemento acumulador passa a cair na mesma miséria dos demais ou em miséria ainda pior, a miséria existencial.

Essa é uma lei natural, irrefutável e inevitável.

Mas então por que temos a sensação de riqueza quando temos bastante, mais do que nos é necessário para viver?

Ninguém precisa de um milhão de reais nem de dez mil e nem de mil reais para viver o dia de hoje. Mas não vivemos o dia de hoje, vivemos na projeção e imaginação do que poderá vir a ser o amanhã. E não vivemos, consumimos, o que é bem diferente.

Essa in-versão da economia certamente foi criada por e para que poucos privilegiados possam realmente acumular, na equivocada convicção de que acumular lhe dá segurança, condições de consumir sem limites e que a consequência disso será a felicidade.

Quem busca o acúmulo, a concentração de riquezas, pensa ser independente, pensa não precisar de ninguém e que pode viver feliz com os seus excessos guardados. Entretanto já está mais do que provado na história da humanidade que isso não é verdade. Todo multimilionário chega ao ponto em que sua vida se torna sem sentido e seu interior se torna vazio, mesmo com a conta no banco cheia de cifras.

Recentemente, Steve Jobs deixou uma mensagem sobre isso que estou afirmando aqui, que circulou e ainda circula pela internet, mas infelizmente ele descobriu tarde demais que a riqueza não está no que se possui, mas no que se é e na maneira como se compartilha a vida.

Eu não sou economista e nem gosto de números e exatidão, mas li recentemente uma explicação de como o dinheiro é produzido, sob quais fundamentos. Estupefato, entendi que o dinheiro que tanto valorizamos é produzido a partir de dívida. A explicação era sobre o Banco Central Americano, mas se não serve para todos os países, serve para o dólar, moeda de referência em todo o planeta. Portanto, quanto mais dinheiro, mais endividados ficamos, todo o povo, porque certamente a tal dívida é transmitida até aqueles mais fracos, mais carentes, aos trabalhadores. Por isso, você tem a sensação de que trabalha, trabalha, trabalha, ganha dinheiro, mas nunca chega, nunca é suficiente. É claro, você já tem uma dívida enorme a pagar pelo dinheiro que os ricos acumularam em suas contas. E enquanto mais moeda é produzida, mais dívida é gerada concomitantemente sobre nós, a classe proletária, sobre todos aqueles que não são milionários, empresários, principalmente banqueiros e financistas.

Não somos como os animais e nem as árvores, vivemos sob um regime monetarista, portanto, a dívida gerada na fabricação e distribuição de dinheiro pelo Banco Central e pelo acúmulo dos mais “ricos” é paga por nós e nossa principal moeda é a nossa própria VIDA.

É por isso que as crianças precisam ficar nas creches, nas escolas e os pais precisam trabalhar cada vez mais e mais e mais para manter padrões de consumo irracionais, sem terem tempo para VIVER.

É por esse motivo que é importante a competição, a busca insana por formação, pós, especialização, títulos, poder, padrões, modas e outras ilusões que nos mantêm escravos de nós mesmos. Digo “de nós mesmos” porque não é mais necessário utilizar nenhum método de coação que não sejam a propaganda e os próprios desejos e ilusões do ser humano.

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Chegamos a um ponto tal que não temos mais condições de enxergar outra forma de vida que não esta. Uma situação tal que não sabemos mais como viver e assumimos necessidades criadas como se fossem nossas. “Necessidades completamente desnecessárias”, que trocamos por nossas vidas, nosso tempo, nossa convivência com os filhos, com os pais, com os amigos e com a natureza. Trocamos ilusões e dívidas pela nossa paz, nosso equilíbrio, nossa serenidade, nossa alegria, nossa liberdade.

Se eu tenho uma solução para isso? Não. Não tenho. Por isso preciso de você, leitor, leitora. Você é a parte mais importante desta coluna e da minha vida. Você é quem tem o poder de transformação nas mãos, na mente e no coração.

Você deve estar pensando: o Luciano é louco, quer questionar um sistema global, quer mudar o mundo.

Eu sei que não vou mudar o mundo, que não tenho uma solução para essa questão econômica/monetária. Mas esta coluna e este portal foram feitos pensando em você. Nosso interesse é ajudá-lo, se você achar que necessita, a melhorar a sua vida pessoal, familiar, para que seja mais feliz e livre.

O que eu posso lhe dizer é que eu encontrei uma maneira de conciliar a necessidade de fazer parte do sistema e de dinheiro, para poder viver, com uma vida mais plena. Mudei o foco. O foco agora são as pessoas, o bem-estar delas e o meu, a qualidade do nosso relacionamento. Meu foco é, além desses, a serenidade e o equilíbrio em meu interior.

No meu caso, se é que pode servir de exemplo, não me deixo levar por propagandas, nem promoções, nem por apelos das últimas novidades da indústria e do comércio, não me preocupo com o amanhã, não tenho carro nem TV, não reconheço crises financeiras, não quero ser rico, não preciso do que não seja necessário à VIDA.

E necessário a uma vida feliz, para mim, é a alegria, a gentileza, a convivência pacífica, a educação, o amor, a ética, a justiça, o abraço, o ouvir e compartilhar. Necessário à minha vida é proteger minhas emoções sem ser frio e alienado, é colocar o outro antes de mim, o interesse e o bem-estar do outro acima do meu. Não tenho mais necessidade de estar certo, de ter razão, como também não tenho mais medo da morte ou da dor.

Não preciso de coisas para me sentir seguro e tranqüilo. Mesmo que eu estivesse morando na rua, ainda assim estaria em paz e amaria o ser humano. Embora, quando alguém chega neste ponto em que me encontro, jamais ficaria na rua e desamparado.

É bem verdade que tenho 49 anos e levei uma vida para aprender e mudar. É bem verdade que já criei meus filhos, casei algumas vezes, plantei árvores, sou avô, viajei, escrevi livro, fiz faculdade e também tive coisas.

Hoje não tenho nada, mas tenho tudo.

Minha única ambição é servir, é não deixar que a minha existência aqui acabe enquanto eu estiver correndo, preocupado, da casa para o trabalho e do trabalho para casa, cultivando carnês e cartões com dívidas para pagar, somente para ter alguns brinquedinhos infantis que a maioria quer ter. Minha ambição é dar à minha vida um sentido maior do que o móvel da casa, o brilho das panelas, a marca do meu sapato ou a cor das janelas. Minha felicidade e minha riqueza é poder compartilhar o que tenho, quem sou e ver a alegria nos olhos dos outros.

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Para mim, hoje, a maioria das preocupações comuns não têm mais nenhuma importância. O que importa é o gênero humano, o conhecimento, o amor, a serenidade e a ação concreta.

Não estou dizendo tudo isso sobre mim para que você me admire e nem para que me condene ou critique, embora você tenha total liberdade para fazê-lo. Compartilho estas coisas todas para que você pense um pouquinho sobre suas prioridades e o que você considera riqueza.

Há milhares de miseráveis vivendo em mansões, usando carrões e viajando de primeira classe. Enquanto alguns vivem ricamente felizes em humildes cabanas quase sem mobília.

Não estou apregoando voto de pobreza, mas apregoo que aprendamos a dar o valor certo para cada coisa.

Experimente a in-versão desta lógica econômica e distribua, desprenda-se, doe mais, espalhe mais. Não falo somente de dinheiro, mas de conhecimento, de alegria, de esperança, de tempo, de carinho, de presença, de oportunidades e verás que rico é quem espalha e compartilha e não aquele que junta, concentra e esconde.

Nada disso é invenção ou criação minha, é fruto de leitura, estudo e experiência. E todo bom economista sabe que para ter é preciso doar, devolver parte do que ganha para o bem comum. Mas na época em que vivemos, devolver parte dos ganhos em benefício da comunidade planetária não significa doar para grandes instituições ou consumir para pagar impostos, mas investir diretamente em benefício daqueles que mais necessitam. Também não significa apenas doar dinheiro, mas criar oportunidades e meios para melhorar a qualidade de vida, a saúde, o bem-estar e a felicidade do ser humano.

 

A PAZ