Bom dia,

Vamos iniciar a semana com alguma acidez?

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Este texto é direcionado para pessoas que se autointitulam desconstruídas, que se consideram abertas às pluralidades da sociedade, que estão dispostas a ouvir o outro e refletir sobre o que esse outro tem a dizer. Também para aqueles que obtêm informações que a maioria da população não tem, ou seja, foram privilegiados por atingirem meios mais eficazes de referência durante a vida e, portanto conseguem sobressair-se da melhor forma nesta enxurrada de conteúdo que se tornou o cotidiano. Ser alguém desconstruído é ótimo, para si e para todos os habitantes deste planeta, pois há uma maior receptividade e empatia para e pelo outro – ou deveria haver. Ser alguém bem informado é ótimo, pois – geralmente – torna-se mais difícil se deixar levar por mecanismos de baixo, médio e alto nível de manipulação.

Talvez para alguns de vocês que lerão este texto, ele não faça tanto sentido assim, mas tentarei explicar para que fique acessível a todos, pois de fato este não é um tema muito habitual. Não para a maioria das pessoas pelo menos, acredito. Ocorre que existe um número de seres humanos que tem maior facilidade de enxergar o outro, seus problemas e realidade. Essas pessoas buscam a cada dia se informar da melhor maneira possível sobre o outro, para que de maneira solidária possa em algum momento, quando e se necessário, proteger, ajudar e contribuir de forma mais positiva para com este outro. Quando essas pessoas se abrem para as diferentes realidades que podem advir do outro, sem pré julgamentos, elas estão desconstruindo-se, ampliando-se aos anseios paradigmáticos da sociedade.

Existem ainda pessoas que obtiveram melhores chances de adquirir conhecimento durante seu percurso de vida (aqui pode ser através da escola, da universidade, da vida, da conversa de bar, do que for), e assim aprenderam a driblar armadilhas que podem levar ao obscurantismo. Resumo da ópera: existem pessoas que são naturalmente aptas a desconstruir-se, outras que se desconstroem através do conhecimento que obtiveram, outras que apenas obtiveram conhecimento, porém não se desconstroem. E existem outras pessoas obviamente, mas vamos focar nestas citadas.

Pois bem, adoramos levantar bandeiras, unir vozes, demonstrar solidariedade, mas algo de estranho ocorre pelo desenrolar dos caminhos até a vivência. Como é? Isso mesmo. Muita gente desconstruída que ainda vive dentro do seu castelo construído com tijolos de palavras. E ai de quem tenta confrontar! Você que gosta de compartilhar conhecimento já parou para pensar que talvez o alvo da sua fala protecionista não entenda o proferido discurso? Como é? Isso mesmo. É que nem todo mundo tem acesso à Universidade, Movimentos Sociais, grupos de debates, tão pouco a conteúdo informativo eficaz. Então às vezes você está apenas discursando para aqueles que já tem domínio sobre o assunto, e não para aqueles que de fato necessitam ler e saber sobre essas palavras. Consegue perceber? É bem complexo, também acho.

É que nós, pessoas que tentamos ser desconstruídas e bem informadas, no âmago de acompanhar o ritmo das coisas às vezes esquecemo-nos do mais essencial, que é verificar se a nossa contribuição está de fato chegando a quem precisa, ou se está apenas circulando nos mesmos meios de sempre, afetando as mesmas pessoas de sempre, que no mais das vezes nem necessitam realmente daquilo, apenas compartilham da razão e sentimento. Na teoria a grande maioria quer ser a própria desconstrução, mas na hora da vivência simplesmente segue os mesmos padrões que tanto critica, porque se afasta consciente ou inconscientemente do que é despadronizado/marginalizado, não arrisca outras possibilidades, apenas se fecha. Todos nós nos limitamos. Nos seus círculos de pessoas próximas existem quantos negros, gordos, transsexuais, deficientes, gays, lésbicas, travestis, mulheres que são mães sem parceiro etc? Fica o questionamento: nós, “as pessoas desconstruídas”, nos relacionamos com as pessoas as quais tomamos a voz em certos movimentos? Proponho a reflexão para todos, assim como pra mim também, pois isso tem me incomodado bastante nos últimos tempos.

E mais, descer do pedestal de desconstrução e sabedoria vai fazer bem, porque às vezes nos saturamos de teoria e nos vedamos para a realidade. Essa meus caros, é bem diferente do que consta na maioria dos livros e dos artigos. Parar para ler ou ouvir aquele que está para além dos nossos convívios e círculos vai te impulsionar muito mais. Dar espaço para que entre na sua vida. Ainda, às vezes o nosso discurso cabe à pessoas muito próximas que pelo desgaste da relação e/ou tempo não nos permitimos explorar de modo a contribuir, como por exemplo com a nossa mãe, tia, prima, avó, pai, namorado ou namorada, amigo próximo e etc. Por algum motivo que não sei explicar, mas a psicologia certamente sim, a forma de nos relacionarmos com pessoas próximas se torna muito mais complexa do que com aqueles que não conhecemos, às vezes a aplicação da empatia se torna mais viável para com os desconhecidos, sim, mas deve haver um esforço para nos dirigirmos àqueles que também necessitam de nós, que são a família, os amigos, os amigos da família e dos amigos. A tolerância também deve ser vivida aqui, até o próprio limite, obviamente. Saudavelmente.

Então minhas queridas e meus queridos, para além de nossas teorias está a realidade, e ela pode nos estapear sem dó quando abrimos ainda mais os olhos, mas nos torna menos hipócritas – mesmo que o sejamos no mais das vezes inconscientemente. E arrisco dizer que quando nos permitimos nos entregar construímos um caminho sem volta, a exigência vai aumentando na medida em que a consciência também. É um texto opinativo sim (em breve seguirão os informativos ok?), não se trata de detenção da verdade absoluta, apenas a visão de um ponto de alguém que muito observa, e vem se sentindo incomodada com a falta de tolerância de todos os lados, até daquele que a prega. Sejamos amplos e abertos, mas de verdade, pela metade não basta, a pluralidade deve atingir aqueles que estão à margem, mas não apenas em discursos academicistas, a interação e compartilhamento de vivências vai fazer com que a teoria e a prática se cruzem e o caminho siga trilhando bem, ou pelo menos siga trilhando melhor.

Mastigue o conteúdo e cuspa a acidez, ela esteve presente apenas para que você a sentisse e refletisse sobre a sua existência, agora a cuspa fora, e filtre aquilo que acha que vai fazer bem. Ah, pode cuspir tudo também. Engolir. Cada um digere aquilo que vive, que sente e que acha que convém. Caso algo a/o tenha incomodado, não hesite, estou à disposição. E por ter resistido até aqui, gratidão!

Boa segunda feira, com ou sem acidez, assim como decidir!