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“Ora, a mulher sempre foi, senão a escrava do homem, ao menos sua vassala; os dois sexos nunca partilharam o mundo em igualdade de condições; e ainda hoje, embora sua condição esteja evoluindo, a mulher arca com um pesado handicap[1]. Em quase nenhum país seu estatuto legal é idêntico ao do homem, e muitas vezes este último a prejudica consideravelmente. Mesmo quando os direitos lhe são abstratamente reconhecidos, um longo hábito impede que encontrem nos costumes sua expressão concreta. Economicamente, homens e mulheres constituem como que duas castas; em igualdade de condições, os primeiros têm situações mais vantajosas, salários mais altos, maiores possibilidades de êxitos do que suas concorrentes recém-chegadas. Ocupam, na indústria, na política etc., maior número de lugares e os postos mais importantes. Além dos poderes concretos que possuem, revestem-se de um prestígio cuja tradição e educação da criança mantêm: o presente envolve o passado e no passado toda a história foi feita por homens[2].

(…)

A mulher? É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto “fêmea” soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha de sua animalidade, sente-se, ao contrário, orgulhoso se dele dizem: “É um macho!” O termo “fêmea” é pejorativo não porque enraíza a mulher na Natureza, mas prque a confina no seu sexo.

(…)

Inerte, impaciente, matreira, estúpida, insensível, lúbrica, feroz, humilhada, o homem projeta na mulher todas as fêmeas ao mesmo tempo. E o fato é que ela é uma fêmea. Mas se quisermos deixar de pensar por lugares-comuns duas perguntas logo se impõem: Que representa a fêmea no reino animal? E que espécie singular de fêmea se realiza na mulher?”

As palavras citadas foram publicadas na obra “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, filósofa francesa, e interessante salientar que a publicação original deste conjunto ocorreu em 1949[3]. Quase setenta anos, em outra realidade, mas que se apresentam incrivelmente atuais.

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Simone de Beauvoir, nascida em 9 de janeiro de 1908, França. Filósofa, integrante do movimento existencialista.

“O Segundo Sexo”, apesar da época em que fora escrito, demonstra a disparidade que ocorre na existência do ser mulher e do ser homem no transcorrer da “evolução” da sociedade. A autora narra situações realísticas vivenciadas por mulheres, desde sua infância até a mais avançada idade, conjuntamente com dados que reúnem biologia, sociologia, psicanálise e história. Quando ela o diz que a mulher é escrava ou vassala do homem, ela não o afirma com satisfação, apenas constata de maneira crua que a mulher foi colocada à margem do papel central do ser humano, ela é vista de forma secundária, subordinada às vontades do homem (estes que estão no centro), que como a própria autora cita, em 1949, apesar dos passos dados intuídos a garantir melhores condições às mulheres.

Não é interessante – e assustador – perceber que ideias de décadas atrás são aplicáveis aos dias atuais? Por que nós mulheres ainda precisamos discutir direitos mínimos? Por que ainda somos violentadas por meios de nos compararem a meros objetos de satisfação? Nós ainda temos receio de expressar certas opiniões. Você mulher, ainda repete certos discursos porque lá no fundo quer ser aceita. Talvez sim, talvez não. Nós nos limitamos o tempo todo porque podemos sofrer diversas transgressões, pelo simples fato de sermos mulheres, essa é a realidade. Com que freqüência homens são estuprados? Com que freqüência homem sofre assédio sexual no ambiente de estudo ou de trabalho? Quantos “pais solteiros” existem? Com que freqüência o homem é assediado na rua? Quem conta as parceiras sexuais de um homem?

Há quem diga que estas indagações sejam reflexo de vitimismo. Há quem afirme que mulher tem que saber o seu lugar – até mulheres proferem esse discurso, mas se o fazem e permitem que a coloquem para baixo, motivo há. O fato é que em 1949 uma mulher que teve condições de estudar e tempo para refletir disse que a mulher foi colocada a margem do homem, pelo sistema que nos gere, e que existem motivos para isto. Ela afirmou que a mulher enfrenta adversidades que o homem nunca sonhara encarar, e que há nítida desigualdade entre um e outro.

Muitos homens se sentem incomodados com a postura de uma mulher que rebata aquilo o que lhe foi imposto, e reagem nos mais das vezes de modo nada sutil, mas estes não nos interessam, afinal para eles a subordinação mulher-homem é conveniente, agora, você que é mulher, não se sinta ofendida caso existam grupos de mulheres por aí que lhe pareçam mais ousadas, porque quem sabe um dia você não seja uma delas? Ou não. Hoje você tem certa liberdade justamente por conta de outras mulheres na história que se permitiram ser “ousadas”. Fugiram a “normalidade”. Sempre que puder e tiver interesse, procure aprender com uma mulher, ela com certeza tem mais ciência do que você passa do que um homem. E para finalizar posso dar uma dica? Que tal passar a viver não para agradar o outro, mas sim a si mesma? Caso sinta-se perdida, aposto que encontrará uma mulher no caminho disposta a te guiar. Podemos ser todas amigas, irmãs!

Observação¹: Este texto foi conduzido a modo geral, em reflexão específica é necessário fazer recorte, como por exemplo: existem situações cruéis/inconvenientes que um homem negro passa que uma mulher branca não. Assim como circunstâncias que o homem trans enfrenta que a mulher cis não. Esta colunista é aberta a recortes, e entende que eles são de profunda relevância para o caminho transcorrer equilibradamente. Caso reste dúvidas, não hesite em comparecer.

Observação²: Enquanto redigia parte do texto, foi esta a opção de correção que o Word apresentou. O que pensar?

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Observação³: A data de publicação desta coluna é na segunda feira, e está sendo redigida no sábado. Apenas para efeito de lembrete, não sei como estará a situação política do país, pois no domingo terá ocorrido importante embate, mas muito humildemente peço, que independente de como se encontrar nosso país, que queiramos e façamos de fato, não por ego, mas por consciência coletiva, um país melhor. Pois o que restar de tudo isso será refletido em todos nós, o povo brasileiro.

À você que chegou até aqui, gratidão!

Ainda, força e coragem para o que está por vir!

[1] Termos em  inglês que significa, neste contexto, desvantagem.

[2] Sobre esta frase, podemos afirmar que toda a história foi contada por homens, e como conseqüência apenas seus feitos foram lembrados e enaltecidos, fazendo com que as mulheres e sua participação caíssem no esquecimento. Aprendemos que filósofos, cientistas, revolucionários, políticos e todo e qualquer papel de destaque foi representado por homens, e somente. Até a figura de Deus, segundo a religião predominante atualmente, é masculina. Porém, tudo isto cai por terra quando nos deparamos com a história da humanidade contada por uma mulher, tal informação e consciência foram extraídos da Obra “A história do mundo pela mulher”. Tradução de Bárbara Heliodora. Rio de Janeiro. LTC, Casa Maria Editora, 1989; de Rosalind Miles.

[3] BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sérgio Milliet. – 2 ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009. 2v.