Antes de iniciarmos o assunto, é importante destacar que este é um texto voltado para mulheres, dentro de todas as variações que engloba o ser mulher, pelo simples fato de que a maioria dos relacionamentos abusivos acarreta em violência praticada contra as mesmas, e por mais que um número de pessoas tente negar é a realidade demonstrada em números, fatos, vivências e relatos. Quem nega, o faz por dois motivos: ignorância e/ou má fé.

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Para reconhecer um relacionamento abusivo é preciso observar atitudes diárias de seu companheiro, por vezes é difícil, tendo em vista que dado momento tais comportamentos passam a ser normalizados e/ou neutralizados. A evolução do relacionamento abusivo resulta em marcas profundas nas vítimas, em escalas distintas, dependendo do grau da violência praticada, e também de acordo com outros fatores, tais como a personalidade, realidade emocional, social, econômica, etc.

São várias as circunstâncias que podem demonstrar que você está vivendo um relacionamento abusivo, mas a título de orientação, elencaremos cinco. Leia com atenção e reflita em seguida, quem sabe seja a hora de buscar apoio e romper com aquilo que vem lhe fazendo mal:

  1. Possessividade e controle. Sente que as pessoas tem se afastado de você? Ou que você não tenha mais visitado amigos e familiares com tanta frequência? Que constantemente você fica em casa enquanto ele sai para jogar futebol ou churrasco com os amigos? Ele já reclamou sobre alguma roupa sua? Você deixou de se vestir como queria para não gerar discussões? Quantas vezes? Você se sente vigiada? Se todas as respostas ou a maioria delas foram sim, tem algo de errado aí.
  2. Manipulação. No final de toda discussão você se sente culpada, sempre que vocês iniciam uma, você tem ciência sobre seu posicionamento e no decorrer dela vai diminuindo sua certeza. Durante a discussão escuta coisas como “você está louca”, “não foi isso que eu disse”, “por isso as pessoas se afastam de você”, “se eu falo essas coisas é porque gosto de você”. Como é possível que no final de toda discussão você se sinta errada ou culpada? Será possível que ele acerta em tudo e você não sabe nada? Acho que não!
  3. Induz-te a baixa autoestima. Em um relacionamento abusivo o que prepondera e é a relação de poder, ou seja, o outro vai tentar te colocar para baixo para se sentir mais poderoso. Alguma vez ele já lhe humilhou em particular ou em público? Já lhe chamou de apelidos pejorativos? Com que frequência? Ele lhe desmotiva nos teus objetivos? Já deu a entender que ninguém mais se interessaria por você? Geralmente o parceiro faz isso para que você acredite que somente ele consegue lidar com você, assim, acaba permanecendo no relacionamento com receio do que pode vir a seguir.
  4. Força o sexo. Quantas vezes você já fez sexo com o seu parceiro porque se sentia na obrigação? Ele já te fez crer que caso não se relacionasse sexualmente com ele acabaria se envolvendo com uma terceira pessoa? Isso já aconteceu e ele pôs a culpa na sua “falta de vontade”?
  5. Violência. Elas podem ocorrer com frequência, mas isso não significa que você perceba. Existem cinco tipos de violência que podem ocorrer durante a constância da relação, e não se resume apenas a física, como a maioria das pessoas imagina. São elas: (a) violência física, que é ofender a integridade ou a saúde corporal, bater, chutar, queimar, cortar, mutilar etc; (b) violência moral: ofender com calúnias, insultos ou difamação – lançar opiniões contra a reputação moral, críticas mentirosas e xingamentos; (c) violência psicológica: causar dano emocional, diminuir a autoestima, prejudicar e perturbar o pleno desenvolvimento pessoal, degradar ou controlar comportamentos, ações, crenças e decisões mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação e isolamento, tirando a liberdade de pensamento ou ação; (d) violência patrimonial: reter, subtrair, destruir parcial ou totalmente objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos; (e) violência sexual: presenciar, manter ou obrigar a participar de relação sexual não desejada mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força que induza a mulher a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade

Sentiu-se familiarizada com algo? Em que grau? Não tenha vergonha de pedir ajuda. A culpa não é sua. O medo de romper é natural, mas ele não deve durar para sempre.

Diversas pesquisas acadêmicas bem como realizadas por órgãos e organizações nacionais e internacionais demonstram a perpetuação da violência contra a mulher. Pesquisa realizada pela Anistia Internacional em 50 países revela que uma em cada três mulheres foi vítima de violência doméstica, foi obrigada a manter relações sexuais ou submetida a outros tipos de violência. A Organização Mundial da Saúde[1] elaborou um estudo indicando que quase metade das mulheres, vítimas de homicídio, são assassinadas pelo marido ou namorado, ex ou atual. Ainda, sobre a saúde da mulher e a violência doméstica em dez países, incluindo o Brasil, constatou que apesar dos compromissos internacionais assumidos, não ocorreram mudanças significativas no que se refere à prática deste tipo de violência[2].

A violência que ocorre com a mulher na maioria dos casos é praticada por homens conhecidos e dentro do lar, justamente pelas crenças sociais acerca da violência em geral[3], retratando as mentalidades individuais que se expressam através da coletividade, assim, a cultura da violência contra a mulher se perpetua pelo ideológico tradicionalista como algo costumeiro e cotidiano.

Esse não é um texto para assustar, apenas para alertar sobre a realidade da violência que pode ocorrer nos relacionamentos, e os resultados que pode ocasionar. Não tenha vergonha de buscar orientação com quem acha que pode te ajudar. Pensemos em uma corrente, aquela que for socorrida hoje, pode oferecer socorro amanhã. Não necessitamos de mais exemplos trágicos do que um relacionamento abusivo e a violência doméstica podem provocar.

Boa segunda feira reflexiva,

E por ter chegado até aqui,

Gratidão!

[1] OMS, Informe Mundial sobre Violência e Saúde 2002. Disponível em: < https://www.who.int/whr/2001/en/whr01_po.pdf >.

[2] SABADELL, Ana Lucia. Manual de sociologia jurídica: introdução a uma leitura externa do direito. 4. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. 316 p.

[3] CANTERA, Leonor M. Casais e violência: um enfoque além do gênero. Porto Alegre: Dom Quixote, 2007. 208 p.