Fotos: Arquivo Pessoal/ Alysson Muotri

Fotos: Arquivo Pessoal/ Alysson Muotri

Hoje é dia de entrevista na Com Ciência. E entrevista com muita ciência. Uma ciência do jeito que a gente gosta: feita com amor. Olha a foto de abertura da coluna de hoje. Ela resume tudo: o menino Ivan Coimbra, sua mãe Andrea Coimbra e o nosso entrevistado: Alysson Muotri.

Ivan é a personificação do que move Alysson no mundo. O garoto é autista e Alysson, cientista. Ele pesquisa sobre a cura do autismo. Andrea é o elo entre essas duas pontas da corrente. Quando ela e Alysson se conheceram, Ivan já existia, mas parece que isso não faz a menor diferença, tamanha a sintonia entre os dois.

É até estranho chamar Alysson Muotri de Doutor Alysson. Não que eu tenha alguma intimidade com ele. Ao contrário, conheço somente parte da sua produção científica e acompanho aqui, de longe, seus avanços.

Ele fez pós-doutorado em neurociência na Califórnia, nos EUA, onde está até hoje e atualmente é professor no Departamento de Pediatria da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia. Mas, diferente da imagem que a gente tem dos “homens e mulheres de laboratório”, Alysson é um cientista acessível. Tem uma página no Facebook onde compartilha com o público desde as pequenas felicidades cotidianas de uma família num passeio de domingo até as grandes conquistas como a cura de um neurônio autista. Além disso, boa parte do seu conhecimento está disponível no blog Espiral, onde ele fala de células-tronco sem dogmas nem tabus e escreve de uma forma apaixonada sobre o encantador universo que é o cérebro humano. De um jeito que a gente se apaixona também.

E hoje ele está aqui, na Com Ciência, porque esta é a última coluna do mês de abril e abril é o mês oficial de campanhas mundiais de conscientização sobre autismo. Porque eu tenho um filho autista e não posso perder a chance de falar sobre o assunto com as pessoas. E porque, ainda que ele seja um cientista e eu seja uma mãe, que ele esteja lá nos Estados Unidos e eu aqui no Brasil, a ideia é falar sobre aquilo de que todos nós somos feitos: ciência, conhecimento e consciência.

Alysson Muotri in his lab and office at Sanford Consortium in La Jolla, California on Tuesday May 14, 2013. Photograph by David Ahntholz https://www.twopointpictures.com https://www.davidahntholz.com

Como você imagina que seria o mundo se todas as pessoas – ou a maior parte delas – entendesse como funciona seu próprio cérebro?

Acredito que compreender os mecanismos dos sistemas biológicos complexos, como o cérebro, nos ajudaria a preserva-los, absorvendo o máximo de sua capacidade sem danificá-lo. Portanto, se algum dia chegarmos nesse estágio, acho que a humanidade será mais saudável, inteligente, justa e em harmonia com a natureza.

Você faria uma definição filosófica do que seja um neurônio?

Correndo o risco de errar feio: a unidade da individualidade do ser.

É possível estabelecer uma fronteira entre Deus e ciência? Como? Qual?

Volto à pergunta #1. Ao compreendermos como nosso cérebro funciona, corremos o risco de descobrir que Deus não passa de mais um invenção evolutiva. Acreditar em Deus pode ser uma adaptação selecionada evolutivamente para lidarmos com as dificuldades do mundo atual. É difícil ser ateu. Da mesma forma, nossa espécie só conseguiu evoluir ao incorporar a negação da morte em nosso dia-a-dia. Vivemos como imortais. Não sei se o que eu disse anteriormente está certo ou errado, mas é certamente uma possibilidade. E se estiver certo, teríamos que nos preparar como humanidade para lidar com a ausência de Deus. Talvez isso seja impossível, talvez o conceito de Deus esteja tão enraizado evolutivamente em nossas redes neurais que a humanidade como é hoje não existiria sem que a maioria acreditasse em alguma forma divina.

Não raro, você enfrenta críticas relativas ao seu trabalho. Já vi pessoas usando inclusive termos pejorativos com o objetivo de denegrir sua imagem e fazendo pouco caso de todo o conhecimento acumulado. E mais que isso: não só acumulado, mas também compartilhado de forma acessível. Por que não desiste? 

Não desisto, por que esse tipo de crítica não me incomoda. Não são esses críticos que pagam meu salário. Quem paga, pensa justamente o oposto. Se algum dia essa situação inverter, acho que desisto da ciência e me transformaria numa pseudo-celebridade de segunda classe.

O que especificamente o faz acreditar na cura do autismo?

Alguns fatos me fazem acreditar na cura do autismo:
1-O fato de que é possível, geneticamente e/ou farmacologicamente, reverter o comportamento autista em modelos animais, mesmo no indivíduo adulto.
2-O fato de que é possível, geneticamente e/ou farmacologicamente, reverter o comportamento de um neurônio derivado de um indivíduo autista em laboratório.
3-O fato de que o cérebro autista não possui alterações anatômicas grosseiras (não falta um pedaço do córtex, por exemplo) e não existe neuro-degeneração (perda de neurônios com o tempo). Estruturalmente, o cérebro estaria intacto.
4-O fato de que os autistas têm trajetórias clínicas diferentes em que a maioria melhora com o tempo e, inclusive, alguns acabam saindo do espectro com o tempo. Essa observação é evidência da plasticidade do cérebro autista.
5-O fato de que a genética do autismo nem sempre é 100% penetrante, ou seja, alterações genéticas semelhantes podem levar a quadros clínicos diferentes. Isso indica que os genes não são deterministas e que existem formas, naturais ou artificiais, de compensar por mutações genéticas pré-existentes.

Qual é o ponto que você considera mais fascinante na sua trajetória como cientista?

Existiram momentos fascinantes de descobertas científicas feitas por mim ou pelo meu grupo que me deixaram boquiaberto, como a reversão funcional de neurônios derivados de autistas em laboratório. Outro experimento mostrou que nosso cérebro é composto por parasitas genéticos que contribuem para nossa individualidade. Esses são exemplos fascinados de quebra de dogma científico e que me deixam orgulhoso. Porém, nada foi mais fascinante do que a interação que tenho com as famílias de autistas. A possibilidade de troca de informação por vias informais, como redes socais, tem funcionado como ferramentas importantes para entender melhor a condição, guiar a pesquisa de forma mais precisa, além dos óbvios aspectos motivacionais.

Em um de seus artigos, você afirma acreditar que as doenças neurológicas deixarão de existir no futuro (interpretei certo?).  Quando li, fiquei pensando numa percepção bastante pessoal de que a nossa existência se resume em uma espécie de luta para não ser vencida pela natureza. Estamos sempre, por exemplo, aparando as unhas e os cabelos, cortando o mato para não perder a roça, aparando a grama para não perder o jardim e assim por diante, até chegarmos às grandes lutas humanas contra as doenças. Você acha que um dia essa luta acaba? Temos condições de dominar a natureza de algum modo? Essa perspectiva não pode ser perigosa?

Não, essa luta nunca acaba. Não podemos dominar a Natureza pois somos parte dela. É o efeito da Rainha Vermelha (do Alice no País das Maravilhas), que corre, corre para ficar sempre no mesmo lugar. Ao curarmos todas as doenças da humanidade, iremos buscar a imortalidade. Ao atingirmos a imortalidade, iremos nos deparar com outras doenças, decorrentes da imortalidade. Ao atingirmos a imortalidade sem doenças, iremos buscar outras formas de vida, de se conectar, e, ao chegarmos lá, vamos querer algo mais que nem consigo imaginar hoje. Queremos ser “Deuses” e buscamos isso através do conhecimento. Ao contrário de outros animais, nossos cérebros são atraídos loucamente pela tecnologia e seu poder de transformar nossas vidas naquilo que achamos ser melhor do que o que temos. São nossos “genes egoístas” que querem existir a todo custo. Somos programados para fazer exatamente isso.  Sim, é perigoso para nossa espécie (podemos morrer nessa correria) e acredito que muito da frustração da humanidade seja decorrente dessa tentativa insana de atingir o nirvana inatingível. Infelizmente, não temos opção, é difícil o livre-arbítrio a nível de espécie. Estamos a mercê de uma nova alteração genética que nos livre desse círculo.

Você abraçou a causa da divulgação do conhecimento científico de forma clara, simples e acessível. Por que você sente essa necessidade?

A divulgação científica de forma clara e acessível é uma arte. Eu ainda estou aprendendo. Entrei nessa pois acho que a repetição de conceitos e ideias de uma forma mais simplista me ajuda a consolidar o conhecimento e ligá-lo criativamente a outros dados que já existem na minha mente. É uma atitude egoísta de minha parte.

Qual a maior transformação que você sonha para a humanidade?

Conseguir evoluir sem se autodestruir.

E que legado pretende deixar?

Um filho maravilhoso, feliz e independente. Que seja respeitado pela sociedade. Que tenha a opção de vivenciar o mundo da forma que desejar, que possa amar e ser amado com a mesma intensidade que eu e a mãe dele.