Cândido Portinari – Pipas, 1941

 

As experiências mais simples e lúdicas podem nos proporcionar um entendimento da voz maior do que imaginamos.

Resolvi, depois de adulta, fazer um passeio e empinar pipa. Para quem não me conhece até acharia estranho, mas os próximos sabem que tive uma infância e juventude muito serelepe e sempre achei as “brincadeiras de meninos” muito mais interessantes do que as das meninas. Penso que o motivo seria pelos movimentos corporais serem maiores e intensos e também livres das pressões sociais das quais nós meninas recebemos desde pequenas: brincar de boneca, casinha, roupinhas como uma preparação para a vida adulta que a mulher “deve” ter. E, abusada, até hoje me dou este direito, o primeiro motivo é porque é muito prazeroso, e outro porque essas brincadeiras me dão uma consciência de corpo e vida muito mais ampla que me permite desenvolver vários objetivos dentro e fora do meu trabalho. Mas vamos voltar ao assunto: a pipa!

Fazendo arte

Resolvi então com alguns amigos fazer esta “arte” que há muitos anos não fazia. Chegamos ao parque, sacamos nossas tralhas e meu amigo iniciou o grande voo. Dei sequência com a mesma pipa, porém não tive o mesmo sucesso: ela caiu. Ele, com paciência, a ergueu e ela novamente voou. Fiz outra sequência sem sucesso e indignada falei: “Eu estou controlando e segurando bem, por que então que ela não fica no ar? ”, ele respondeu: “Você tem que soltá-la! ”. Agora, não era a indignação, mas um medo que disse: “Se eu soltar ela cai…. “, e ele: “Solta! Tenta! ”. E claro que assim fazendo ela atingiu a sua plenitude e subiu linda… me senti envergonhada e ridícula com aquela roupa que os adultos costumam vestir: a do controle absoluto! Porém, curiosa, continuei na experiência da pipa no ar, entendendo seu caminho, suas tensões e estabilidades perante à liberdade que era dada a ela.

A voz

Sem dúvidas, essa é uma experiência que carrego até hoje e que nas minhas aulas de voz sempre surge quando estou desenvolvendo meu trabalho, principalmente quando abordo com o aluno as regiões de mudanças de registro. Essas regiões são sempre conflituosas e causam exatamente a sensação de vulnerabilidade, medo e falta de chão justamente por exigir uma velocidade de ar mais intensa e uma espacialização maior. Neste momento é muito comum a pessoa tentar controlar em todos os âmbitos: quanto a respiração, musculatura ou intenção causando, claro, o efeito contrário ao desejado.

O Corpo Vocal atuando

Foi assim que percebi que a melhor forma de explicar este percurso seria fazendo a analogia do voo no vazio, que é o grande salto que transcende, que cria novas experiências, novos valores e, ao contrário do primeiro estado, não há medo, mas sim plenitude. Neste ponto, o propósito maior deve estar muito firme e o objetivo desfocado, pois a única coisa que interessa é o caminho. Dessa forma, pleno o pássaro salta e voa livre. Assim é o canto, que se cria no nada e permeia por onde quiser. Essa direção é dada com a história que contei acima que sempre começo dizendo:

“Você conhece a teoria da Pipa? ”

E foi brincando que encontrei um jeito de trazer para essas pessoas as experiências adequadas a este conhecimento. Mas diga: A vida não é isso, uma grande brincadeira?

Desejo um ótimo voo à você!!

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