“Certa vez, Vinicius, o de Moraes, disse: “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” (1)

É lendo e ouvindo o Vinicius que vez em quando podemos parar e refletir: porque parece estar tão difícil de encontrar as pessoas? E não são determinadas pessoas, independe da brecha na agenda, do convite para uma passada rápida em um café. Encontrar.

Faz-se necessário, portanto, que distingamos encontrar e conhecer. O primeiro verbo é da ordem da troca, uma troca que nos modifica no processo: quando um encontro acontece, não saímos dele conforme entramos. “Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio…”, já dizia Heráclito. As águas mudam e os afluentes também se transformam. No encontro com o outro, nossas experiências, gostos e percepções interagem. Elas se tocam, se chocam, se acariciam. E é nesse paralelo com a água que visualizamos a possibilidade de compreendê-lo: estamos em permanente transformação. O segundo, e que consideramos predominante nos tempos atuais, compreende a visualização, a interpretação acelerada, a análise. Observamos, mas não nos permitimos afetar pelas relações e é sobre esse ponto que discutimos a seguir.

Vivemos em um tempo em que a diversidade de tarefas, mas também a imensidão de distrações, aplicativos, sites (ditos) de encontro, provedores de email é incalculável. Vendemos nosso amor e nosso afeto como quem preenche o curriculum vitae de um cargo de empresa concorrido. Esvai-se em benefícios aquilo que poderia ser troca de experiências. O encontro ficou cada vez mais associado à casualidade que a permanência.

Não sejamos generalistas: há quem consiga. Raro e cada vez mais.
Será por medo? Vergonha? Falta de tempo?

Nessa dança de aproximações e esquivas, que tempo temos nos dado para ter tempo para nós mesmos, para acertarmos nossos ponteiros e descobrirmos o que realmente queremos? E dentro de todo esses nós que produzem a nós, que tempo – e espaço – há para um Outro? Quem de fato está disposto a se ampliar na diferença que promove um encontro de fato?

Alguns dirão que precisamos cuidar de nós mesmos, ser nosso maior projeto, mas desconsideram o fato de que não vivemos isolados e que precisamos da palavra e do olhar do Outro para nos constituirmos – o que é diferente de ser definido por esse (s) outros.

Entre esse eu que se apresenta e o mim que (re) pensa a existência, que sofre e promove movimentos (im) perceptíveis, há a ação de uma palavra alheia, o encontro com o diferente e que, digerido ao sabor das trocas, modifica nossas visões de mundo – ou no mínimo faz algo tremer. Sim, precisamos construir esse eu em que vivemos, mas quando é sobre este mim que refletimos, lembremo-nos que ele precisa do contato com os outros para se produzir.

No meio destas inúmeras possibilidades, destes sete bilhões e duzentos milhões de possibilidades, quantos encontros de verdade?
Quantas trocas de olhares não nos deixam desconfortáveis?
Onde reside a soma que nos faz um?
Onde se esvai o silêncio em meio a multidão?

Se somos, então, esses encontros e existir presume a capacidade de afetar e ser afetado, agir no mundo, construir por meio de palavras e atos a nossa marca nesses espaços que habitamos, que rastros estamos deixando? Que encontrarão de nós quando pararmos de dançar?”

 

Apresentei esse texto a Thiago após dois cafés e uma bebida forte. Seus olhos pareciam congelados naquelas linhas, “talvez o garçom tenha exagerado na hortelã do seu suco”, declarei. Via em sua expressão alguém que havia se encontrado. Tal situação não era novidade pois nos desencontramos e encontramos tantas vezes que, a surpresa refletia nosso cotidiano.

Me fez algumas perguntas como quem convida o outro pra dançar, afinal toda pergunta implica um movimento: chamar o outro para o nosso mundo, convocar o outro para nosso encontro. Mas isso, isso é papo pra outros líquidos.

 

(1) Trecho da canção “Samba da Benção”, do álbum Vinicius (1967). Composição em parceria com Baden Powell.

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