Rodrigo Geraldo e Diego Henrique Ern (do blog Galo Digital)

Rodrigo Geraldo e Diego Henrique Ern (do blog Galo Digital)

O positivismo tão arraigado nos nossos corações produz resultados que nunca podem ser subestimados. É se aproveitando disso que aparecem modismos que, ainda que com a melhor das intenções, são desastrosos. Por não detectarmos o positivismo em todos os quadrantes da nossa vida, é que nos deixamos levar pelas ondas e aceitamos a pressão externa que, a todo momento, quer nos dizer o que fazer.

Da mesma forma que escrevi na semana passada sobre os transgênicos, a gente tem alimentado o estranho hábito de basear nossas escolhas no empirismo, o que acaba só reforçando aquele mundo dividido em dois, sem chance para o diverso. Ou é preto, ou é branco.

Eu poderia alongar essa análise, mas vou me concentrar em um ponto específico: alimentação.

Nesse campo de discussão, o combate a alguns tabus geram outros que podem ser ainda piores e o diálogo vai se tornando cada vez mais impossível. Quando se vê, se está fazendo exatamente aquilo que se critica.

Não sei dizer quanto tempo faz que surgiu a onda da intolerância ao glúten e à lactose. Quando eu era criança não ouvia falar disso. O que sei é que esse é um entre centenas de tabus que se criaram em torno da alimentação nos últimos tempos.

Estou negando que essa intolerância exista?

Absolutamente.

E não só existe a intolerância como também existe a doença celíaca, aquela que está presente no corpo de uma pessoa que realmente não pode ingerir glúten ou terá sua saúde realmente comprometida.

Apenas estou querendo mostrar que o nosso positivismo pega um problema real e o transforma numa neurose coletiva graças à desinformação.

Adendo: ser uma pessoa desinformada sobre algum assunto não tem nada de errado. O erro está, repito, no positivismo.

É ele que vai fazer você acreditar que eliminar o glúten vai fazer você milagrosamente emagrecer. É ele que vai fazer você acreditar que, eliminando o glúten, a lactose e a caseína, o autismo de uma criança irá desaparecer. É ele que vai fazer você acreditar que pessoas que consomem leite de vaca vão ter câncer no futuro. É ele que vai fazer você demonizar pessoas que comem carne. E vai fazer você achar que todo mundo que não come carne vai ter anemia no futuro.

Positivismo.

Aquele aspecto do nosso pensamento que não aceita o diverso e, por isso, desconhece que o consumo humano de leite de vaca foi uma adaptação evolutiva pela sobrevivência.

Sim. Entre os mais de 7 bilhões de habitantes da Terra, temos uma boa parcela que tem genes adaptados para o consumo de leite, de glúten e sabe-se lá mais o quê.

Num dado momento pelo qual o planeta passava, um grupo de seres humanos estava morando em um local que foi tomado pelo gelo, impossibilitando o cultivo para o sustento. Solução? Consumir leite de vaca, o que possibilitou que aquele povo sobrevivesse ao frio e à fome.

Esse grupo desenvolveu, ao longo do caminho evolutivo, genes capazes de digerir a lactose. Isso significa que uma parcela da humanidade tem esses genes, ou seja: nem todo mundo está impedido de consumir leite de vaca nem durante a infância e nem na idade adulta.

Ah, mas tem a questão da indústria, do leite industrializado, do massacre aos animais que são criados para engorda e abate, dos impactos na natureza, etc. São todos argumentos importantes de serem debatidos. Mas, aqui, são positivistas. Porque não é sobre essa questão que estamos falando. É sobre a existência de seres diversos, alguns capazes de digerir leite, outros não. Alguns capazes de viver sem carne, outros não.

Alguns que fazem escolhas conscientes. Outros, não.

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