Imagem retirada do blog Bem Criar (bemcriar.com)

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Remédio.

Essa palavra é um tabu.

Quer ver se juntar remédio e criança. Pronto. É como jogar minhoca no galinheiro. Remédio, criança e neurologia. Senhor. Vai pular opinião de tudo quanto é lado.

Grande parte bem intencionada, até. Maior parte, desinformada.

Desde que me aproximei do autismo, há cinco anos, quando veio o diagnóstico do meu filho, estudo muito sobre esse assunto.

E além de estudar, sou testemunha também. Por enquanto, estou presidente de uma ONG que trabalha com autismo, a AMA Brusque. Reunimos uma boa quantidade de casos ali que merecem, no mínimo, respeito.

Vamos ao ponto.

Remédio dá medo, sim. Mas é porque não há informação e eu vim trazer um pouco dela. Como vou concentrar minha fala sobre a medicação na neurologia, precisamos, antes, entender um pouco sobre o nosso cérebro.

O funcionamento do cérebro é essencialmente químico. Sua célula principal é o neurônio. Os neurônios precisam se comunicar para que o cérebro – e o resto do nosso corpo – funcione. Essa comunicação se dá por impulsos elétricos.

E, por se tratar de impulsos elétricos, os neurônios não podem se encostar para que haja a transmissão da informação. Essa transmissão é feita por uma substância chamada neurotransmissor que, em linhas gerais, vai “pegar” a informação do neurônio A e “levar” ao neurônio B. Cada neurotransmissor tem suas funções que são basicamente estimulantes ou inibitórias.

Chegamos ao medicamento.

Transtornos neurológicos em geral estão associados a problemas na produção de neurotransmissores. Ou a pessoa tem demais ou a pessoa tem de menos. E aí temos os efeitos disso: depressão, ansiedade, insônia, dores exageradas ou falta de sensibilidade, etc. Falando mais especificamente do autismo, que conheço melhor, é por isso que aparecem comportamentos como a hiperatividade, os comportamentos estranhos, a irritabilidade, o sono desregulado, a agressividade e a autoagressão, para citar alguns exemplos.

Há diversas correntes ligadas a esse conhecimento. E muitas delas estão certíssimas. Uma boa alimentação pode proporcionar maior bem-estar e, por consequência – digamos assim – proporcionar uma produção mais eficiente de neurotransmissores ligados ao prazer, à felicidade e à satisfação, como a serotonina.

A prática de exercícios físicos é outra dica para regular essa produção. Uma pessoa cansada e com serotonina, dopamina, adrenalina, etc., em equilíbrio, sentindo-se bem e feliz, vai dormir como uma deusa.

Práticas como a oração, o perdão, a meditação e a contemplação de coisas belas como a natureza também estão relacionadas à liberação de neurotransmissores relacionados à felicidade e ao bem-estar.

Mas, como você vai estimular uma pessoa que tem a coordenação motora prejudicada a fazer exercícios físicos? Como você vai levar uma criança que tem hipersensibilidade auditiva (só o barulho de atrito da roupa já basta para uma crise) a jogar bola? Como você vai oferecer alimentos naturais e saudáveis a alguém que sofre com a seletividade alimentar severa e não consegue ingerir quase nada sem vomitar? Como você vai levar uma pessoa hiperativa a meditar? Como estimular uma pessoa que deseja tirar a própria vida a perdoar alguém? De que jeito conseguir que uma criança que mal consegue terminar uma frase tamanha sua desconcentração consiga orar?

Muitas pessoas, para conseguirem dar esse primeiro passo e um dia alcançar algum equilíbrio, precisam, sim, de um negócio chamado remédio. Ou… aquilo que se convencionou chamar de droga como se remédio fosse outra coisa. Existem substâncias da maconha, por exemplo, que regulam a liberação de neurotransmissores. Mas não vou, hoje, entrar nesse mérito especificamente.

O fato é que existem corpos que precisam de um estímulo artificial como uma espécie de empurrão.

Não pense que é fácil.

E essa dificuldade se potencializa quando a decisão envolve uma criança diagnosticada com um transtorno mental. Um diagnóstico que, em 99% dos casos, cai como uma bomba nas mãos da família.

Essa família vai enfrentar, então, um preconceito duplo: o de ter um filho diagnosticado com um transtorno mental e o de ter um filho diagnosticado com um transtorno mental que toma remédio.

Aqui, a desinformação sobre o assunto prejudica mais uma vez.

Porque ninguém explica a essa família – e à sociedade como um todo – que o remédio não será a cura e jamais poderá ser uma muleta. O remédio poderá ser apenas uma porta que se abre (uma regulação na produção de neurotransmissores) para que a terapia mais adequada entre em cena e possa ser aplicada até o fim com resultados mais satisfatórios possíveis. O remédio poderá potencializar a terapia.

O remédio poderá ajudar a pessoa a se concentrar, a não sentir tanta raiva, a não ficar tão triste, a conseguir sair de casa e a desempenhar suas atividades. A viver. O remédio pode ajudar a começar o primeiro dia de atividades físicas. A ir rejeitando cada vez menos os alimentos. A se concentrar no que outra pessoa diz e, quem sabe, a se relacionar com alguém. A mergulhar cada vez mais fundo numa meditação, que vai melhorando a cada prática. A se reconectar com… Deus.

E, assim, aos poucos, a pessoa vai conseguindo produzir dopamina. Adrenalina. Endorfina. Serotonina. Até que alcance por conta própria essa regulação com uma caminhada, uma dieta saudável, sessões semanais de meditação, a terapia de grupo e tantas outras atividades possíveis.

Então, quando um médico receitar a você ou ao seu filho um remédio no campo neurológico, busque mais informações sobre os seus neurotransmissores.

E quando você encontrar alguém “que toma remédio”, não julgue. Você literalmente não sabe o que se passa na cabeça dessa pessoa.

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