Foto retirada do portal Nó de Oito (http://www.nodeoito.com/)

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Tive o ímpeto de criar esta coluna para tentar desmistificar ciência e, com isso, tentar tornar pessoas um pouco mais conscientes. Para minha surpresa, estou tendo dificuldades. Hoje, no lugar de trazer um assunto, eu decidi que quero desabafar.

Até porque o que me aconteceu do momento em que comecei a escrever o texto desta semana até agora, momento da publicação, foi bastante significativo para o meu pensar. E o meu penar. E o meu escrever.

Eu ia escrever sobre a linguagem, a importância da comunicação e o que isso tem a ver com a evolução humana para, no final, observar que um dos mais importantes elementos para a nossa evolução não só biológica, mas principalmente cultural, é também o que está nos levando ao abismo.

O texto saiu, até. Mas achei sem força. E eu me dei conta de que eu já escrevi sobre isso aqui, aqui e aqui. Ah… que chato… me senti enxugando gelo de novo. E meio que me desanimei. É estranho. Eu, que vivo com papel e caneta anotando textos que me surgem a todo instante, palavras que me tiram da cama de madrugada, textões que já inundaram minha página no Facebook, ando desmotivada. Não quero me expressar.

Porque tá pesado. Os caminhos tomam rumos que não são o propósito inicial. E eu me sinto como a árvore que teve suas folhas queimadas pela geada. Sequei. Tenho raiz. Tô plantada, sim. Viva. Mas esperando por uma primavera para voltar a frutificar porque tenho frio.

Que necessidade é essa de falar e falar e falar de novo sobre o mesmo tema, Giselle? Por que o vazio das palavras te incomoda tanto? É como se, no meu silêncio, eu sentisse uma necessidade de resguardá-las de mais esvaziamento. É como se eu não quisesse mais entregar minhas palavras, que me são tão caras, tão valiosas, ao vento. Um vento improdutivo que leva a uma fogueira de onde nada vai restar a não ser cinzas.

Não consigo esconder meu sofrimento com o esvaziamento das palavras e com o que se transformou a comunicação. Tiros e textos andam tendo o mesmo propósito. A mesma intensidade. E causam as mesmas dores. Matam.

Matam-me. Um pouco a cada dia.

Feito caranguejo, acabo por me esconder na minha concha, ainda que tenha fome.

Cuido do meu estoque que ainda não acabou, mas que por enquanto vai ser só meu. É que sinto que, se eu dividir, parece que ele não vai matar fomes. Só vai alimentar ódios porque acabam fazendo dele o que bem querem.

Eu tinha desistido, mais uma vez.

E, então, eu me deparo com o texto desta semana da jornalista Eliane Brum publicado no El País, coluna que acompanho religiosamente. Li o título, a linha de apoio e o primeiro parágrafo. E, como sempre Eliane faz comigo, paralisei, estarrecida. Senti aquela sensação de uma notícia ruim. Ela também tem essa mesma necessidade que eu. Só que, claro, ela escreve com uma maestria que eu não alcanço.

Li o segundo parágrafo. Voltei ao título. À linha de apoio. Ao primeiro parágrafo. Ao segundo parágrafo. E paralisei de novo. Saí da minha concha só para constatar: eu estou certa. Infelizmente. “No Brasil, as palavras são fantasmas”.

Deve ser a parte Guarani que compõe o meu DNA e que, como explica o artigo, considera a palavra a parte mais densa da vida. Talvez por isso eu sinta tanto esse esvaziamento. Esse escorrimento por um ralo que cai num infinito que não se alcança mais.

Como expliquei no texto que seria para hoje e que descartei, não se sabe em que momento a linguagem humana surgiu. As teorias são inúmeras e bastante controversas. No entanto, uma coisa é unânime: foi a comunicação que nos trouxe até aqui. A comunicação é o elo que une todas as maiores invenções humanas. Entre as mais importantes e significativas, figuram as que proporcionam o comunicar humano.

Sinto que é justamente esse comunicar cada vez mais intenso – e de certa forma, livre (sem aprofundar a palavra livre) – que está nos matando. Nossos dedos estão todos sujos de sangue. E a voz de quem grita, já não se ouve.

Eu quero acreditar que estejamos passando por algum rito. Uma passagem mesmo. Porque dizem que o velho tem que morrer para o novo nascer. Na lavoura é assim. O milho nasce, floresce, dá o fruto esplêndido, até que seca, é colhido e morre. A palha que fica, vazia, é um importante adubo para a próxima colheita.

Que assim seja.

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