O Pensador de Rodin. Não encontrei o nome do autor da foto.

Pessoas que acham que meu filho não come, não entra em restaurante e chora para ir à escola porque eu não sei lidar com ele. Pessoas que me dão dicas. Pessoas que descrevem como seriam – na cabeça delas – as cenas delas conversando com ele, “com jeitinho” e tendo certeza de que vão conseguir. Pessoas que acham que afinando a voz, oferecendo um abraço, falando com ele como quem fala com alguém de três anos de idade, ele vai entender. Devagarinho… aos pouquinhos… com jeitinho… convencendo…

Grande parte das vezes, elas me falam isso com, digamos, carinho. Mas é um tipo de carinho que chega a me deixar constrangida. Elas realmente torcem pela gente, parece. Elas pegam nas minhas mãos e me dizem para confiar porque “tudo vai dar certo”.

Para quem não sabe exatamente do que estou falando, eu tenho dois filhos. O mais velho, de 13 anos, tem autismo. Uma coisa sobre a qual muito se tem falado ultimamente e talvez seja exatamente aí que esteja o problema.

Eu mesma falo. Publico vivências nossas, busco explicar a origem das dificuldades que ele tem, dou palestras sobre o assunto e estou presidente de uma associação que congrega familiares, profissionais, pessoas com autismo ou simplesmente interessadas no assunto.

Portanto, muitas pessoas sabem boa parte da minha história com os meus filhos.

Mas tem coisas que são complicadas.

Dia desses, uma pessoa me encontrou e, do nada, me deu um abraço. Um abraço apertado. Disse estar orando muito por mim. Depois, segurando as minhas mãos, desatou a me dizer mais um monte de outras coisas. Disse que conhece as “minhas lutas” e que era pra eu confiar porque – olha ele aí de novo – “tudo vai dar certo”. Disse que me desejava forças, que sabia que não era fácil, mas que mãe é mãe e mãe sempre encontra forças para lutar porque o amor é maior que tudo. E mais vários etcéteras.

Agradeci porque, quando isso acontece, eu não consigo ter reação, mas permaneço incomodada éons depois. E só então que minha mente formula aquilo que não consigo dizer na hora.

Moça, eu não estou sofrendo, nós não sofremos por causa do autismo do meu filho. Eu não sou triste e nem me sinto enfraquecida. Nós apenas precisamos fazer adaptações. Simples assim. Meu filho é feliz. Eu não preciso crer que “tudo vai dar certo” porque, pra mim, tudo já está certo. Sempre esteve. Eu não quero nenhum milagre. Eu não espero nenhuma “cura” para o meu filho e acredito muito no meu trabalho de conscientização. Sou grata a todas as oportunidades que já tive, tenho e sei que terei de levar a reflexão não só sobre o autismo, mas sobre humanismo para as pessoas.

E então, mais uma vez, sou levada a crer que, na verdade, os temas até mudam, mas nós estamos sempre falando sobre o mesmo assunto. De atentados terroristas a uma atleta mulher e negra medalha de ouro; de Donald Trump a autismo; de genocídio indígena a pedofilia; de ciência a religião; de esquerda a direita ou muito pelo contrário; de feminismo a ecologia, nós ainda não entendemos o básico.

Nós ainda acreditamos que as pessoas nascem com os chamados dons e só são músicos brilhantes ou atletas olímpicos porque são predestinadas a isso. Atribuímos nossos sucessos e fracassos a uma coisa chamada DNA. Mas não sabemos o que é DNA. Desconhecemos o que é um ácido desoxirribonucléico. Na verdade, sequer temos ideia de qual seja sua real função, mas tudo atribuímos a ele.

Na outra ponta, temos os que dizem que tudo foi programado por Deus e que nascemos para cumprir um programa que, no frigir dos ovos, sempre irá nos condenar ao sucesso ou ao fracasso ou à dor. “Deus quis assim”.

Dia desses, numa conversa sobre professores e alunos, uma mãe saiu com a típica fala: “para ser um bom professor, tem que ter dom”.

Não.

Profissão, conta bancária, projetos de futuro e muitas outras coisas não são transmitidos através de genes. Herdamos a cor dos olhos, dos cabelos, da pele. Herdamos a estatura, o formato do nariz, uma eventual propensão a alguma doença.

Para ser um bom professor, assim como para ser qualquer coisa, tem que querer ser. Tem que estar aberto a ser. Tem que estar disposto a ser. Tem que deixar-se ser. Não falo aqui da tal meritocracia, tão rasa quanto o discurso do DNA – discussão que deixo para depois.

Para ser bom em qualquer coisa, o primeiro passo é aprender o básico: abrir a mente para o que poderá vir e deixar que a vida seja sempre uma folha em branco que vai ser escrita letra por letra, dia após dia.

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