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Foto: Arquivo Pessoal / Vanessa Bencz

A partir de hoje, uma vez por mês a Com Ciência vai abrir espaço para expor outras consciências. Vamos trazer entrevistas. Abrir a janela do conhecimento para ouvir outros pontos. Queremos ver outras vistas.
A estreia é com uma menina pra lá de danada que mora em Joinville, Santa Catarina.
Ela anda por aí com esse cabelo vermelho, raspado de um lado, que emoldura um par de olhos verdes que falam.
Vanessa Bencz, 31 anos, jornalista. Reconhecida em todo o país pela sua batalha contra o bullying e em nome da paz.
Trata-se de um exemplar que contém em si a força e a beleza descritas em versos pelo saudoso Leminski: distraída, ela venceu.
E continua vencendo, todos os dias.
Vanessa tem Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e, apesar de talentosa, sofreu bullying na escola. E por anos a fio, ela acreditou em todas aquelas coisas horríveis que lhe atribuíam durante a infância e parte da adolescência.
Mas, feito a flor da açucena, ela enganou todo mundo. Os sonhos podem até não ter sido muito regados, mas o bulbo ficou escondidinho o tempo que foi necessário, maturando. Até que um dia, distraído, floresceu. E hoje, enfeita os jardins de muitas vidas que se descobrem só por sentir o seu perfume.
Quer saber como foi que ela transformou todo aquele sofrimento em um grande projeto de vida que está resgatando um montão de jovens pelo Brasil?
É uma história linda! Vem ver:

Como foi que tudo isso começou?
Eu me formei em 2008 em jornalismo. Meu sonho era ser desenhista, mas, aos 14 anos, fui ridicularizada por um professor de matemática por ter esse objetivo de vida. Quando me formei, trabalhei muito tempo como repórter de jornal diário, assessoria de imprensa, etc. Foi só em 2013 que tive coragem de retomar o sonho antigo de trabalhar com história em quadrinhos.

Você pode descrever a cena com o professor de matemática?
Sim. Matemática sempre foi o meu ponto fraco e eu tive o azar de ter um professor que mais parecia um vilão de novela. Eu sentia muito tédio nas aulas dele e ficava desenhando em vez de prestar atenção. Um dia, ele me pegou desenhando, mostrou meu desenho pra turma inteira e disse: “o que você acha que vai ser da vida?”. Respondi: desenhista! Ele riu: “no máximo você será uma cartazista de supermercado e isso se tiver sorte porque artista não tem vez no Brasil. Vai ser uma mendiga”. Isso me traumatizou muito. Eu tinha só 14 anos e não tinha ferramentas psicológicas para entender que ele estava sendo maldoso e preconceituoso.

Você se lembra do que sentiu naquele exato momento?
Eu fiquei devastada. Um misto de vergonha com raiva, então resolvi abortar esse “sonho”. Tentei prestar atenção nas aulas, mas aqueles números nunca fizeram sentido pra mim. Alguns professores não têm noção de que o que eles falam vai ficar marcado pra sempre nas pessoas. Esse professor provavelmente era só um mal amado que estava na profissão errada…

E como aconteceu a virada?
Há quatro anos, uma professora me pediu para ir falar sobre o meu trabalho de jornalista para sua turma de 6ª. série. Quando eu entrei na sala para falar, me deu um ruim, me veio à tona a cena com aquele professor.

Mas por algum motivo específico ou pelo fato de estar em uma sala de aula?
Eu acabei narrando para os estudantes tudo o que passei. Fui bem transparente. Eu me senti mal por estar novamente em uma escola, de ouvir o barulho das crianças, ver aqueles cadernos, o quadro negro, ouvir todo aquele burburinho. Então eu percebi o quanto a escola me fez mal. Não é uma lembrança boa pra mim. Muitas pessoas têm saudades. Eu, não!

Então, ao invés de falar sobre jornalismo, você falou sobre a sua experiência inteira.
Sim! Mudei totalmente de assunto. Falei sobre como foi minha trajetória, sobre o quanto eu era chamada de fracassada, burra, incompetente, distraída, desleixada… Nossa! Os alunos piraram. Queriam ouvir mais sobre isso. No fim das contas, nem falei nada sobre jornalismo. Lembro de ter falado assim pra eles: “galera, nunca se deixem abater pelas coisas ruins que falam para vocês. Vocês ouviram muito o seguinte: ‘vocês não são bons o suficiente. Não são bonitos o suficiente. Não são inteligentes o suficiente. Não são fortes o suficiente. Vocês são SIM!’”. A turma foi à loucura e a professora pediu pra eu voltar na semana seguinte e falar com outra turma. Outros professores de outras escolas começaram a me chamar porque ouviram falar que “uma jornalista levava turmas à loucura”.

Como foram essas primeiras experiências?
Logo na primeira turma, ouvi uma história horrível. Uma menina me chamou num canto depois e me mostrou seu pulso cheio de cicatrizes e me disse: “a sua história é a minha história. Mas, em casa, eu sou abusada por meu padrasto e não quero mais viver. Me dê um motivo pra eu viver!” Chorei muito. Falei para a menina: “só tenho um motivo pra você viver: sou sua amiga agora e vou te ajudar.” Levei ela em uma psicóloga. Eu me apaixonei por esses adolescentes. Dois anos depois de começar a dar palestras, resolvi que era preciso algo a mais e então empreendi A Menina Distraída. Juntei o útil ao agradável e criei uma história em quadrinhos sobre bullying. Foi um sucesso. Vendi mais de cinco mil exemplares e minhas palestras foram solicitadas em todo o Brasil. Larguei tudo o que eu estava fazendo só para cuidar da Menina Distraída e fazer palestras. Nunca achei que fosse me apaixonar tanto por algo. Engraçado, porque a gente tem mania de planejar toda a nossa vida. Nunca achei que fosse ser tão feliz com algo que começou despretensiosamente.

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Foto: Arquivo Pessoal / Vanessa Bencz

Você afirma ter um diagnóstico de TDAH. Isso faz algum sentido para você?
Tive o diagnóstico aos 14 anos, depois daquela situação da humilhação do professor. Meus pais viram que fiquei estranha e me levaram numa psicóloga. Ela, que já era experiente, desconfiou, fez um milhão de testes e descobriu. Depois disso é que comecei a me entender e a resgatar minha autoestima. Eu era muito nova para tomar remédios. Então, a psicóloga me ensinou umas técnicas de memorização que me foram muito úteis. Foi como se alguém acendesse a luz dentro da minha cabeça. Comecei a me entender e a fazer as pazes comigo mesma. Claro que não foi do dia para a noite.

De que forma você acredita que nasce o bullying?
Considero o bullying uma manifestação da transição infância/adolescência, até porque as crianças levam à escola algo que não foi combatido dentro de casa. Geralmente, os pais incentivam da seguinte forma: se te xingarem, xingue de volta! Se te empurrarem, empurre de volta! Se te colocarem um apelido, coloque outro de volta! Sem falar naqueles que são vítimas dentro da própria casa e depois são agressores na escola. Vivemos em uma cultura de competição. O mercado de trabalho também é assim.

Você vislumbra um jeito de mudar esse paradigma?
A mudança é difícil por vários motivos. Alguns deles:
1. Pais e mães não levam a sério o problema do bullying ou são ingênuos quanto a isso;
2. Pais despreparados para fortalecer emocionalmente e psicologicamente seus filhos;
3. Escolas despreparadas para lidar com o bullying;
4. Sociedade que incentiva essa competição pelo melhor.
Porque, veja bem, o vestibular já é uma competição pelo mais brilhante, pelo mais inteligente. Do ponto de vista espartano da educação, inteligente é aquele estudante brilhante em exatas. Mas… e o resto? E aquele que é brilhante em música? Em dança? Em emoções? Esses também são fundamentais para a saúde da sociedade. É uma sociedade da exclusão. As escolas não preparam as pessoas para a vida. Preparam para o vestibular e só para o mercado de trabalho.

De que forma você acredita que o seu trabalho pode pelo menos minimizar isso?
Em primeiro lugar porque faço um convite ao exercício da empatia. Eu conto a minha história e digo: o atual sistema de educação quase me destruiu. Eu jogo luz no que tá escondido contando a minha história. Eu levo as pessoas pela mão para enxergarem as coisas do meu ponto de vista, que é um olhar amoroso para os estudantes que precisam de ajuda. Damos destaque demais àqueles estudantes “brilhantes” e esquecemos aqueles que são vítimas, que são agressores, que têm problemas e são deixados de lado.

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Foto: Arquivo Pessoal / Vanessa Bencz

Depois desses quatro anos, você consegue sentir de alguma forma o efeito disso nas pessoas?
Sim, cada vez mais! Diariamente eu recebo feedbacks incríveis:
1. Dos estudantes que me dizem: cara, a minha história é igual a sua e me sinto mais forte agora;
2. De estudantes que me dizem: nunca tive problemas, mas agora estou contigo para ajudar aqueles que sofrem como você sofreu;
3. De professores que dizem: eu andava meio insensível com meus alunos, mas agora já sei como reagir;
4. De pais e mães que não enxergavam direito seus filhos, que viam eles como projetos
e não como seres humanos ou que simplesmente os ignoravam por arrogância ou ingenuidade e que viram uma forma de amá-los e protegê-los.
A luta contra o bullying é só uma parte da campanha. Eu gosto de falar que luto em nome da paz, do amor e da tolerância.

Em todas as palestras acontece de um estudante te chamar no canto para se abrir?
Sim, é assustador. Acontece todas as vezes. Seja pessoalmente, seja por um bilhete, seja por mensagem no Facebook ou por email. Por isso é que digo: no momento em que esses estudantes resolvem se abrir com uma estranha que foi à escola deles, algo está errado. É uma carência latente.

E sempre tem relatos pesados?
Em 80% dos casos, os relatos têm violência envolvida.

Como você lida com isso pessoalmente falando?
No primeiro ano de palestras eu chorava diariamente. Eu me quebrei como ser humano. No segundo ano resolvi fazer terapia. Depois precisei parar porque havia lançado a Menina Distraída e ganhei uma depressão de presente. Há um ano me trato de depressão, mas me sinto extremamente forte. Entendi que não posso ser uma heroína. Posso oferecer minha amizade, meu incentivo e encaminhamentos.

E qual a estrada que você vislumbra agora?
Estou para lançar um livro novo: “Leia quando chegar em casa” e pretendo fortalecer as palestras nacionalmente. Sei que estou sozinha e que é o mesmo que eu tentar lutar contra um tsunami, mas não vejo a possibilidade de parar. Sou apaixonada por pessoas e amo demais falar sobre paz, sobre sonhos.

As pessoas te definem como uma “vencedora”. Uma garota com TDAH que foi humilhada e “venceu”. Esse conceito às vezes está diretamente relacionado com essa cobrança contra a qual você luta. É o “ser alguém na vida”, o ter sucesso. Você se considera uma vencedora? Qual é a sua vitória?
Nunca me rotulei dessa forma. Eu gosto de dizer assim: eu nunca fui tão feliz!

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