Imagem retirada da página de Mauricio Amormino Jr. (http://mauricio.amormino.com.br)

Imagem retirada da página de Mauricio Amormino Jr. (http://mauricio.amormino.com.br)

A comunicação é uma ciência. E, enquanto ciência, tanto no seu aspecto mais técnico como no mais voltado ao comportamento humano, é uma das que mais tem sofrido transformações neste último século.

Você estar aqui, agora, lendo isto, é uma prova.

Ao mesmo tempo em que se transforma, a ciência da comunicação é também uma das que mais exerce influência no modo como todas as outras ciências chegam e atuam na vida das pessoas. E entender como se dá esse processo é fundamental para que haja alguma lucidez nos dias de hoje.

Foi em busca de um pouco dessa compreensão que a Com Ciência foi buscar o que a jornalista Ivana Ebel tem pra nos dizer. Mestre em Mídias Digitais e doutoranda em Ciência da Comunicação, Ivana é uma “alemoa” nascida em Blumenau (SC) que mora na Alemanha.

Ela é autora do blog De volta à nave mãe em que, desde 2008, divide suas experiências do outro lado do Atlântico. Além de falar sobre o que é ser um ciadão morando na Alemanha (e mostrar que não é quase nada como a gente pensa) ela também fala abertamente de assuntos por vezes espinhosos.

No ano passado, nasceu o Fala, alemôa!, com a mesma verve vanguardista do anterior que cativa alguns e desperta sentimentos adversos em outros. Desse caldeirão de experiências mais o estudo sistemático do que acontece com a rede e com as pessoas, Ivana Ebel nos traz algumas respostas.

Ivana Ebel / Arquivo pessoal

Podemos afirmar tecnicamente que a internet é um meio de comunicação de massa?
Ela pode, sim, ser considerada um meio de comunicação de massa. O uso dela é que é distinto. As pessoas passam cada vez mais tempo conectadas, mas, para o lazer e notícias, por exemplo, a TV ainda continua sendo o meio principal em muitos países.

Mas o conceito do que é um meio de comunicação de massa continua o mesmo ou a internet trouxe alguma mudança para esse paradigma?
O que muda no conceito de meio de comunicação de massa é com relação à concentração da audiência: se a TV concentra, a internet difunde. Há, evidentemente, portais, canais, sites, pessoas que concentram um maior número de acessos, mas existe uma possibilidade real de desconcentração, o que não ocorre na mídia tradicional. Existe ainda um processo de clusterização, por assim dizer, em que o volume de audiência se dá por um determinado assunto de interesse e não mais por uma questão geográfica que delimitava a área de cobertura ou abrangência.

Qual seria o maior impacto dessa transformação?
A tendência do processo é o deslocamento da audiência de um veículo para uma marca: você deixa de ler o jornal A para ler notícias que esse jornal produziu ou agregou a partir de outros colaboradores em diferentes espaços e canais ou mesmo para ler conteúdos de fontes que você não tinha acesso antes e que chegaram avalizados, ou seja, recomendados por amigos, por jornalistas, sites, formadores de opinião e outras pessoas que você decidiu seguir. Outra coisa importante é separar o conceito de internet e de Web. A Web é uma pequena fração da internet apenas…

Mas a possibilidade de interatividade não tende a fazer a TV ir perdendo? Ou essa perda do espaço não está acontecendo?
O modelo tradicional de TV está falindo e por isso o desespero das grandes emissoras, que precisam de dinheiro para continuar. A renovação já não ocorre no volume desejado e a audiência cai vertiginosamente à medida que a penetração da internet avança. Os smartphones estão chegando a uma população que nunca teve computador. Para muitos, o primeiro contato com a internet, redes sociais e afins é pela tela do celular e isso é muito positivo do ponto de vista da difusão da informação, da democratização do acesso, mas para as emissoras que seguem com um modelo de negócios tradicional, é uma ameaça bem séria.

Do seu surgimento, na década de 1950, até aqui, como você vê as transformações da TV no Brasil?
A TV aberta passou por sucessivas transformações e também quebras de audiência ao longo do seu desenvolvimento. Primeiro com o controle remoto. As pessoas não precisavam mais se levantar do sofá e ir até o aparelho para sintonizar outro canal, virar a antena. Com o tempo, as TVs passaram a ter sintonia automática e já era possível mudar o canal do sofá. O controle remoto levou mais de 10 anos para chegar no Brasil (na época da ditadura!). O acesso a informação era muito controlado e restrito. A tecnologia existia há anos até que chegou ao país. Depois vieram as parabólicas e, nesse contexto, as emissoras locais perderam, já que as antenas pegavam o sinal com a programação nacional ou de outras praças. Então chegou a TV a cabo, hoje em total decadência, a TV por satélite e agora a TV por streaming e on demand. Aquela hegemonia do “Faz-se agora a rede nacional de rádio e TV” é algo que não existe mais.

Se esse é um meio que se transforma e se readapta tanto, qual tem sido a influência da internet?
A internet borrou as fronteiras entre as mídias. Com o processo de convergência para uma plataforma que, do ponto de vista técnico, considera todas as informações iguais (em essência é tudo zero e um), os produtores de conteúdo tiveram que se tornar multimídia: jornal faz vídeo, rádio faz vídeo. TV faz texto, rádio faz foto e por aí vai.
O que acontece com toda a evolução tecnológica, é que ela segue um modelo de implantação que faz uma onda: começa com poucos, vai aumentando até atingir quase todos e, quando começa a chegar aos últimos adotantes, vem a próxima onda. Em resumo: assim como a TV sem controle não existe mais, as parabólicas são quase peça de museu e a TV a cabo já saturou sua capacidade justamente porque depende de cabo. A TV de programação linear está em declínio.

Como fica a programação, então?
Atualmente, o modelo de programação por demanda parece ser o substituto da TV tradicional. O jornalismo televisivo ainda não descobriu isso. O rádio já ensaia algumas tentativas, com os podcasts. Isso abre uma nova discussão de que o modelo de negócio de grandes veículos também está exaurido e por isso há tanto esperneio. As notícias, sejam de rádio, TV ou texto (veja bem, não estou falando jornal e sim, texto) deixam de pertencer a um referencial único.

Ou seja: o consumo de informação e entretenimento entra em uma nova era?
As pessoas não vão mais ligar a TV para ver um programa da Globo. Não vão mais ligar o rádio para ouvir um programa X e não vão assinar um jornal ou portal de internet para ter acesso ao conteúdo de um veículo só. O consumo de informação, seja em qualquer formato, passa a ter a assinatura de um veículo ou outro, de pessoas, de entidades. O processo se chama Branding News. Esse conteúdo passa a ser consumido como um mosaico: cada um monta sua própria programação.
Outra mudança é em relação ao gatekeeper – que é a pessoa que define a hierarquia de importância das notícias de um veículo, o que sai ou não sai no jornal. Ele perde poder ou mesmo desaparece, já que passa a ser substituído por robôs: são os algoritmos que se encarregam da seleção baseada em curtidas, compartilhamentos, acessos, links e afins. O que mais se lê é o que será ainda mais lido.

Os trending topics podem sofrer esse tipo de influência algorítmica e só por isso se tornar trending topics?
Os trending topics são o resultado de uma equação matemática. Os robôs identificam quais são as palavras e as hashtags mais usadas e listam isso. Esse processamento de dados parte de um princípio de que quanto mais popular um assunto é, mais gente provavelmente vai se interessar por ele. Então é como nas notícias: se uma notícia com muitos acessos tende a aparecer primeiro em uma lista, por aparecer primeiro ela tende a ter ainda mais acessos. Com os assuntos que se discute também. A diferença é que antes discutíamos isso do ponto de vista da filtragem humana. Hoje não: são processos automatizados.

Cheguei a cogitar que a informação em mosaico poderia ser uma saída para diminuir a manipulação das massas através da mídia de massa. Mas, temos a questão dos algoritmos. Ou seja: as pessoas podem selecionar o que querem consumir de informação, mas poderão correr o risco de viver em uma bolha e deixar de ter contato com os “outros lados” das questões. Como você vê isso?

Existem as duas coisas. A primeira é que as pessoas podem montar sua própria programação, escolher seus canais de informação de fato, mas é difícil fazer a seleção em tempos de sobrecarga de informação. A segunda é o reflexo disso: acabamos aceitando um papel passivo e acabamos lendo o que nos aparece. Eu, por exemplo, tenho quase dois mil amigos na rede (e uns 30 na vida real). Interajo sempre com as mesmas 50 pessoas. Quanto mais eu curto ou comento o que uma pessoa publicou, mais conteúdo dessa pessoa aparece na minha linha do tempo. O algoritmo aprende que eu interajo constantemente com a pessoa X ou Y e vai sempre buscar formas de me fazer interagir ainda mais. A rede social vive de publicidade, venda de informações e do tempo que cada um passa nela. Por isso, a ferramenta tenta entender os meus gostos, hábitos e oferecer cada vez mais coisas que eu gosto, pessoas com as quais eu interajo para que eu fique mais tempo conectada. Assim, é fácil imaginar que a maioria das notícias com as quais eu interagi confirma o que acredito. Esse ciclo faz com que a visão de mundo se torne distorcida. Pode ser confortável viver nessa bolha, mas é absolutamente perigoso.

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