Cena do filme The Wall, do Pink Floyd

Um dos culpados pelo tanto de charlatães de sucesso é o modelo de ensino. Escola não tem ensinado a pensar, mas a engolir conteúdo (ok, não vamos discutir a qualidade do conteúdo. Não hoje).
Escola tem o modelo hierárquico de conhecimento em que um ser é o detentor do poder e do saber. Aquele diante de quem todos se calam quando ele fala. O mestre.
De modos que, quando a gente vê alguém falando de um jeito que a gente não entende, opa, esse sujeito deve estar falando a verdade.
E então, você vê aí um tanto de pessoas falando conceitos como cérebro, neurônios, intestino, inflamação, glúten, CO2, ozônio, lactose e autismo. Coloque tudo em uma vasilha ampla chamada discurso, misture bem até criar uma pasta e sirva confeitado com um vocabulário atraente. Se for apresentar ao vivo ou em um vídeo na internet, faça cara de inteligente e não esqueça de usar gravata. Se for o caso, acrescente um doutor ao seu nome, ainda que a procedência do adereço nem sempre possa ser conferida.
Pronto.
Uma legião de pessoas desacostumadas a buscar o significado dos conceitos, o sentido dos discursos irá simplesmente engolir seu conteúdo e acreditar no que você está falando.
É assim que uma salafrária consegue, por exemplo, manter um programa de rádio semanal aqui na minha cidade (Brusque/SC) prometendo para as pessoas que cura de asma a câncer, de depressão a autismo, de gordura no fígado a diabetes apenas mudando o “estilo de vida” e a alimentação das pessoas baseada numa tal de “medicina de Deus, a única que dá resultado”.
É assim que gente mau caráter – e olha que tem médico nessa turma – promete curar o autismo tirando glúten, lactose/caseína ou açúcar da alimentação ou receitando pílulas envenenadas lançando mão de explicações completamente descabidas com informações desprovidas de qualquer embasamento científico.
Não é difícil desmascarar esses charlatães. Uma busca rápida logo demonstra a total falta de coerência dessas práticas e discursos. Então, como eles podem fazer tanto sucesso? Como conseguem levar tantas pessoas a submeter seus filhos a práticas que podem causar danos irreversíveis?
Aposto, entre outras coisas, na falta de hábito das pessoas de questionar. Você não precisa saber o que é um neurônio, mas tem todas as condições de se perguntar: o que é um neurônio?
Uma única pergunta pode conter todas as respostas de que precisamos para aquele momento. Mas a gente se acostumou a seguir o mestre e não a dúvida. E simplesmente não sabe procurar respostas.
A escola não ensina a diferença entre uma resposta embasada e uma suposição, em senso comum ou apenas naquilo que nosso desejo quer ouvir, como, por exemplo, cura.
Todo dia, tenho me deparado com gente disseminando obscurantismo sobre muitos assuntos. Um dos mais próximos de mim é o autismo. Com três frases, é possível derrubar quase todas as teses que me chegam. E não. Não sou doutora, nem cientista, mas aprendi a fazer pesquisa sobre o assunto.
Na escola? Não. Depois do diagnóstico do meu filho.
Se o modelo de ensino não se preocupasse tanto com o acúmulo de conteúdo e sim com a formação de questionadores e fuçadores, ou seja, se não matasse a nossa infância, tenho certeza que não veria o charlatanismo tendo tanto sucesso sobre a ignorância e o medo das pessoas.
E pra terminar, duvidem: autismo não é doença. Portanto, não tem cura.

Banner do site Reinehr.org