O Valor da Voz

Inúmeras vezes me deparei sobre o real valor da nossa voz. E, confesso, que este questionamento ainda é o que impulsiona a minha vida. A voz abrange uma série de signos nas quais, muitas vezes, nem nos damos conta: o timbre, a cor, a textura, a potência, a presença, a ausência e muitos outros.

Não há como falar do corpo humano sem mencionar sua fisiologia. Entendamos o nosso aparelho fonatório (de um modo geral, simples e breve) como a união de órgãos, músculos e ossos. O ar parte dos pulmões, brônquios, traqueia e laringe (onde é produzido o som), passando pelos articuladores: língua, palato mole e duro, lábios, dentes e mandíbula, e é amplificado pelas caixas de ressonância superior e inferior. Tudo isso num trabalho de inspiração e expiração, no qual o diafragma é o principal responsável. Sem dúvida, se tratando de saúde, qualquer elemento que a afete, consequentemente trará maus resultados à voz.

Invisível Presente

Nossa voz, nosso corpo como unidade, está completamente vinculado à todas as alterações que pode sofrer. Não há como fragmentar ou separar. Ele é reflexo de um conjunto de informações sobre o que somos, acreditamos, acumulamos, sentimos e muito mais. Com isso é imprescindível que tenhamos ouvido atento ao que nos quer dizer.

“(…) Como uma mão invisível, a voz parte do nosso corpo e age, e todo o nosso corpo vive e participa dessa ação. O corpo é a parte visível da voz (…). A voz é o corpo invisível que opera no espaço. Não existem dualidades, subdivisões: voz e corpo. Existem apenas ações e reações que envolvem o nosso organismo em sua totalidade.” – Eugênio Barba

Cultura Vocal

Assim, poderíamos começar a falar sobre a nossa educação vocal familiar, na qual descobrimos nossos primeiros sons e palavras. Porém, nesta fase, aprendemos muito mais que palavras. São pelas imitações que continuamos nosso aprendizado, através do tipo de voz que nos é apresentado, e é por essas imitações que vamos desenvolver a nossa qualidade vocal. Inconscientemente repetimos o que ouvimos em nosso ambiente cultural e familiar, isso é o que vai determinar como será a nossa voz, ou seja, que vai definir se ela vai ser natural, estridente, abafada, com muito ar, forte ou fraca. Claro que todos estas psicodinâmicas exercem uma função de autoexpressão e este é outro ponto a ser abordado.

A expressão vocal surge por inúmeros motivos, mas podemos simplificar em dois tópicos: pessoal e social. Nos dois sentidos a voz vem dizer coisas sobre amor, união ou separação, paz ou revolta, e isso pode ser muito natural ou conflitante, de boa ou má qualidade, bem ou mau falada. A nossa voz pode ser interpretada erroneamente, pode ser sentida com tranquilidade, estar em estresse, ser rejeitada ou mesmo ansiada. Independente da reação do receptor dessa nossa voz, é ela quem vai nos dizer o nosso real lugar.

Expressões como, por exemplo: “Ela é a voz daquela família”, “Devemos ouvir a voz do povo”, “Deixe que a voz de Deus te diga”, “Ele não tem voz naquela família”, entre tantas outras, só nos mostram o quanto “ter voz” é um sentido muito mais amplo e arraigado à nossa personalidade do que podemos imaginar. Falar bem, se calar, ter frases desconexas ou ásperas, ser claro são formas de ter voz que mostram verdadeiramente como somos e estamos dentro de um processo de comunicação.

Arte de Dentro

A arte da palavra vem então criar qual será a relação que terei com aquele interlocutor e trará a responsabilidade compatível, vemos então a necessidade de ter bons valores para aplicação desse conhecimento. Palavras tem vida e movimentos próprios e escolhe naturalmente o caminho que quer percorrer.

Assim, podemos perceber a grande importância da nossa voz em nosso dia a dia, seja profissional ou pessoal. Vemos também o valor das palavras dentro deste contexto e, principalmente, as ações e reações que elas exercem dentro e fora do nosso corpo. Cuidemos da nossa voz interior para que ela seja sempre presente, clara e saudável.

Bibliografia:

– Barba, E. Além das Ilhas Flutuantes. Trad. Luis Otávio Burnier. São Paulo/Campinas: Hucitec/Editora Unicamp, 1991, p.56.
– Extraído de: Gayotto, Lúcia Helena. Voz, partitura da ação/Lucia Helena Gayotto. –São Paulo: Summus, 1997, p. 25.
– Marsola, Mônica. Canto: uma expressão: princípios básicos de técnica vocal/ Mônica Marsola, Tutti Baê. Sâo Paulo: Irmãos Vitale.

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